O KILLERISMO – UM TRANSTORNO MENTAL DISTINTO? (parte 1 de 2)

 

A definição de “killerismo”

Chamaremos “killerismo”, basicamente, o “sintoma”, ou a “doença” que o serial killer porta. Por exemplo, podemos dizer a respeito de um serial killer qualquer que “o seu killerismo surgiu aos 28 anos”. Isto quer dizer que começou a matar, de forma não-motivada, nesta idade.
A bem da verdade, antes do primeiro homicídio existe um período, variável de serial killer a serial killer, em que existem as fantasias homicidas, o planejamento etc. Estes fatos também fazem parte do killerismo, da “doença-killerismo”. Em Medicina, os sintomas que antecedem uma doença propriamente dita mas ainda não são típicas desta são chamados “pródomos”, ou “sintomas prodrômicos”. Por exemplo, indisposição e febre baixa podem aparecer antes da dor na garganta e das placas esbranquiçadas que caracterizam uma amigdalite bacteriana – são os pródromos, portanto. O fato de estar ainda nos sintomas prodrômicos não torna uma pessoa sã. Assim é também com o killerismo. Uma pessoa pode ter fantasias homicidas e, embora elas não sejam um indício de normalidade, pode-se não passar das fantasias ao ato. Mas, se passou, isto é, se matou, o killerismo se instalou por completo. Desta forma, em algumas ocasiões poderemos dizer que “o pré-killerismo surgiu aos 26 anos” e estarmos nos referindo ao fato das fantasias terem surgido nesta idade e a prática de homicídios um pouco mais tardiamente.

Como vimos no capítulo “A definição de ‘serial killer’”, o termo “serial killer” gera controvérsias. Por este motivo, restringimos, naquele capítulo, a definição que aqui utilizaremos. Até para diminuirmos esta confusão, podemos adotar um novo termo, que equivalha à nossa definição. Podemos, aqui, chamar tais assassinos de “killeristas”.
Isto é, da mesma maneira que o portador de esquizofrenia é chamado de esquizofrênico, e vários outros exemplos poderiam ser dados (o portador de transtorno de personalidade anti-social é chamado simplesmente de “o anti-social” etc.), da mesma maneira o portador do killerismo pode ser chamado de “killerista”.

A hipótese do killerismo como entidade nosológica distinta

Levantamos aqui a hipótese de que o killerismo seja um transtorno mental distinto de todos os outros existentes nos manuais psiquiátricos. Os principais manuais de classificação que a Psiquiatria utiliza, hoje, são a CID-10 (Classificação Internacional de Doenças, 10a edição) e o DSM-IV (Diagnostic and Statistic Manual, 4a edição). O primeiro foi confeccionado pela Organização Mundial de Saúde e o segundo pela Associação Psiquiátrica Americana. Em nenhum dos dois existem diretrizes para um diagnóstico de algo semelhante ao killerismo.
Comumente, a associação que se faz, em trabalhos que buscam associar o killerismo a algum transtorno mental, é com o transtorno de personalidade anti-social (TPAS). Isto é, os killeristas seriam “anti-sociais”, segundo estes trabalhos.
Entretanto, levantamos a hipótese de que o killerismo é uma doença distinta do TPAS. Por uma série de motivos, conforme explicaremos mais adiante. Primeiramente, precisamos explicar ao leitor não familiarizado com o jargão psiquiátrico o que é o TPAS.

Definições de transtorno de personalidade anti-social

Na linguagem do dia-a-dia, diz-se de uma pessoa que não gosta de sair, “se entrosar”, diz-se que esta pessoa é “anti-social”. Este não é o significado do termo “anti-social” em Psiquiatria.
O anti-social, para esta especialidade médica, é o indivíduo “frio”, sem remorsos, sem empatia (capacidade de colocar-se no lugar do outro). Ou seja, o que popularmente chama-se de “psicopata”. Mas este termo foi abandonado pela Psiquiatria. Até mesmo porque, por suas origens, significaria “doente do psiquismo”, “doente da mente” – assim como “cardiopata” significa “doente do coração” etc. -, logo, “psicopata”, em sentido estrito, é qualquer pessoa portadora de qualquer transtorno mental: depressão, síndrome do pânico etc.
O TPAS é, antes de tudo, um transtorno de personalidade. Isto significa que, sendo algo da personalidade da pessoa, estará, ao menos parcialmente, visível antes da pessoa tornar-se adulta. Pois, como se sabe, a personalidade de alguém já é parcialmente distinguível desde a infância. Portanto, ao contrário de outras doenças psiquiátricas, nos transtornos de personalidade não podemos estabelecer com facilidade um início – exemplo: “ficou deprimido pela primeira vez aos 23 anos”; “começou a ter os delírios esquizofrênicos aos 21″ etc.
Existem diversos tipos de transtornos de personalidade (paranóide, ansiosa, dependente, obsessiva etc.). Para o diagnóstico de todos eles, é necessário que os sintomas apareçam, ao menos atenuadamente, de forma precoce. Segundo a CID-10, “as manifestações sempre aparecem durante a infância ou adolescência e continuam pela vida adulta”; para que façamos o diagnóstico pelo DSM-IV, é estabelecido que o padrão de comportamento “ocorre desde os 15 anos”, ao menos.
De qualquer forma, na prática evita-se fazer o diagnóstico antes do início da idade adulta, pois sabe-se que comportamentos anormais podem fazer parte da infância ou adolescência e “sumirem” na idade adulta. Por isto, no caso de crianças ou adolescentes com comportamento anti-social, prefere-se o diagnóstico de “transtorno de conduta”. Muitas vezes um transtorno de conduta evolui para TPAS, mas nem sempre.
Além do critério idade, o mais importante para o diagnóstico do TPAS é o quadro sintomático.
A CID-10 cita uma lista de seis sintomas; o DSM-IV, sete. Nos dois manuais, três ou mais sintomas precisam estar presentes para que se faça o diagnóstico de TPAS. Entretanto, a lista de sintomas entre os dois manuais não é a mesma. Existem três sintomas equivalentes, entre elas, e os outros em cada lista diferem entre si.

Transtorno de personalidade anti-social – critérios diagnósticos da CID-10

Pela CID-10, há TPAS se o indivíduo possui 3 ou mais das seguintes características de personalidade:
(a) indiferença insensível pelos sentimentos alheios;
(b) atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito por normas, regras e obrigações sociais;
(c) incapacidade de manter relacionamentos, embora não haja dificuldade em estabelecê-los;
(d) muito baixa tolerância à frustração e um baixo limiar para descarga de agressão, incluindo violência;
(e) incapacidade de experimentar culpa e de aprender com a experiência, particularmente punição;
(f) propensão marcante para culpar os outros ou para oferecer racionalizações plausíveis para o comportamento que levou o paciente a conflito com a sociedade.


Transtorno de personalidade anti-social – critérios diagnósticos do DSM-IV

Pelo DSM-IV, há TPAS se estão presentes 3 ou mais de:
(1) fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos legais, indicado pela execução repetida de atos que constituem motivo de detenção
(2) propensão para enganar, indicada por mentir repetidamente, usar nomes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer
(3) impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro
(4) irritabilidade e agressividade, indicadas por repetidas lutas corporais ou agressões físicas
(5) desrespeito irresponsável pela segurança própria ou alheia
(6) irresponsabilidade consistente, indicada por um repetido fracasso em manter comportamento laboral consistente ou honrar obrigações financeiras
(7) ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa

A soma de CID-10 e DSM-IV

Note-se que os sintomas (a), (b) e (d), da CID, equivalem aos sintomas (7), (1) e (4), respectivamente, do DSM. Os outros três da CID-10 não encontram semelhantes nos outros quatro do DSM. Desta forma, somando-se as duas classificações, temos 10 sintomas que podem estar presentes no indivíduo com TPAS:
* impulsividade e fracasso em manter planos de longo prazo;
* irresponsabilidade no trabalho, dívidas;
* desrespeito por normas sociais ou legais;
* propensão para enganar;
* incapacidade de manter relacionamentos;
* desrespeito pela segurança própria ou alheia;
* baixa tolerância à frustração; irritabilidade e agressividade;
* ausência de empatia, de remorso;
* incapacidade de aprender com a experiência;
* propensão para racionalizações.

O surgimento da hipótese do killerismo como um transtorno distinto

A hipótese de que o killerismo poderia diferir do TPAS surgiu-nos quando, ao estudarmos as biografias de alguns serial killers, percebermos que, aparentemente, antes do surgimento do killerismo, não haviam indícios claros da presença de um TPAS.
Uma objeção bastante válida a este pensamento seria a de que talvez o TPAS existisse, só não estivesse “visível”. Entretanto, contra-argumentamos de duas maneiras:
1) nos casos mais famosos de serial killers, suas vidas pregressas, antes do surgimento do killerismo, foram bastante pesquisadas. E, por uma questão de atender ao interesse do público, o que mais se expõe são os “podres” desta vida, isto é, os furtos, as brigas que se envolveu, e não os fatos positivos. Isto é, quando lemos uma biografia de um serial killer, podemos ter a certeza de que estamos sabendo tudo “de ruim” possível sobre aquele indivíduo. E são estes fatos “negativos” que possibilitariam um diagnóstico de TPAS, se ele existisse.
2) do ponto-de-vista científico, quando surge uma hipótese, ela deve ser descartada não com argumentos, opiniões, mas sim através de ciência, isto é, na verdade deve-se provar que todos os serial killers possuíam TPAS antes do killerismo, para derrubar a nossa hipótese, e não que este ou aquele, ou “muitos”, possuíam. Em Filosofia, existe o chamado “argumento do cisne branco”: quando afirmo que “todos os cisnes são brancos”, minha afirmação só é válida enquanto eu não vir um cisne negro. Se eu vir um, há duas opções. Ou terei que dizer “isto não é um cisne, porque não é branco”, o que transformaria a frase “todos os cisnes são brancos” em uma tautologia, isto é, um discurso redundante, vazio, já que eu estaria dizendo que “para ser cisne, tem que ser branco”. Ou então, quando visse um cisne negro, teria que dobrar-me às evidências: “cisnes podem ser brancos, negros, e quem sabe até azuis…”. O mesmo ocorre aqui. Se, em alguns casos, os elementos permitem um diagnóstico de TPAS, quando não os encontrarmos teremos que admitir que estes não existem, e não apelar para o argumento do “TPAS invisível”.

A bem da verdade, quando o killerismo surge, por definição o indivíduo terá alguns sintomas necessários para um diagnóstico de TPAS, ao menos três, a saber: o desrespeito por normas legais (o homicídio), o desrespeito pela segurança alheia e a ausência de empatia (pois, obviamente, as vítimas não queriam morrer). Pelo DSM, já seria possível fazer o diagnóstico de TPAS quando há o killerismo. Pela CID, bastaria mais um sintoma, pois destes três apenas dois fazem parte de sua lista.
Ou seja, quando surge o killerismo, quase que por definição o indivíduo já seria anti-social. Por isto, é feita tão facilmente a associação: “o serial killer é um anti-social”. Porém, há problemas nesta associação feita tão rápida e não aprofundadamente.
O primeiro é a questão da idade do início dos sintomas. Conforme dissemos, em alguns casos notamos que não havia indícios claros de sintomas de TPAS antes do início do killerismo. Se estes sintomas não existiam antes do início da vida adulta, não podemos fazer um diagnóstico de um transtorno de personalidade típico. Para esse tipo de situação, existem outras categorias nos manuais: o “transtorno de personalidade não especificado”, na CID-10, e o “transtorno de personalidade sem outra especificação”, no DSM-IV. Isto é, se os sintomas de comportamento anti-social surgem em uma idade atípica, já não podemos mais fazer um diagnóstico de um TPAS “típico”.
Desta maneira, a hipótese que passamos a pesquisar foi a de que, em alguns casos, o killerismo poderia surgir em indivíduos que não possuíam TPAS. Se assim fosse, poderíamos começar a pensar o killerismo como uma entidade distinta do TPAS.
Além disto, pareceu-nos que o serial killer possui algumas características outras que o distinguem de um portador de TPAS “puro”, conforme veremos adiante.

–> Leia a parte 2: As diferenças entre o killerismo e o transtorno de personalidade anti-social

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