Ele está foragido.
Sua família, segundo reportagem da Folha de São Paulo, pediu para que seu nome não fosse divulgado, pois diz ter certeza que ele foi sequestrado e que corre risco de vida.
Porém, vários meios de comunicação já divulgaram seu nome, Michel Goldfarb Costa, e sua foto. Michel é artista plástico e administrador de empresas.
É interessante ler os comentários da reportagem da Folha. Revoltados, muitos leitores colocaram lá o nome do autor dos eventos e o link para a foto dele. Segundo outros comentários, o jornal estaria apagando comentários porque Michel faz parte de uma família influente.
Há também uma grande indignação com uma hipótese levantada: Michel estaria em surto psicótico. Um exemplo de dezenas de comentários muito semelhantes:

É compreensível o sentimento dos comentaristas. Mas, como psiquiatra, tenho de fazer algumas considerações que vão contra todos estes comentários.
Parece-me óbvio que Michel estava em surto (não necessariamente psicótico), transtornado. O relato completo da sequência de crimes que cometeu demonstra isto. Não havia um propósito evidente. Não queria roubar, não queria sair matando. Não teve o comportamento típico de um atirador sequencial.
Um dia de fúria
Quase todas as mídias falaram que Michel Goldfarb Costa estava em “Um dia de fúria”, em referência ao clássico filme estrelado por Michael Douglas. Mas quem viu o filme há de se lembrar que até mesmo o personagem de Michael Douglas parecia menos descontrolado, menos confuso que Michel.

O que de fato aconteceu com Michel? Não é possível saber, por enquanto. Mas as hipóteses não são muitas: um surto desencadeado por estresse agudo (relata-se que estava desempregado); um surto realmente psicótico (que não necessita de motivos para aparecer); intoxicação por drogas; ou até mesmo um tipo incomum de epilepsia… É prudente que sejam feitos também uma ressonância cerebral – um insuspeito tumor cerebral pode ser a causa de tudo. Quando Michel for encontrado (se não se matar antes), provavelmente passará por uma Junta Médica e os psiquiatras forenses quase certamente investigarão estas hipóteses.
Não porque ele seja rico, bilionário ou mendigo. Simplesmente porque é o que, psiquiatricamente, parece ter ocorrido a Michel.
Impunidade?
É não é por ser rico ou pobre que ele sairá impune. Se Michel Goldfarb Costa não for condenado e preso, em boa parte será porque a lei brasileira diz, no artigo 26 do Código Penal, que “É isento de pena o agente que, por doença mental, era, ao tempo da ação, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.”
Se os peritos considerarem que um eventual transtorno causou apenas uma redução de sua capacidade de entender o que fazia, ou de controlar-se, o acusado ainda pode ser condenado, mas terá a pena reduzida.
“Um absurdo!”, “Impunidade!”, bradarão muitos. Pelo contrário. Se tudo correr de forma correta, sem influência de dinheiro, família poderosa etc., justiça terá sido feita. Isto não significa que Michel sairia impune. É possível, por exemplo, que lhe seja imposta uma medida de segurança, isto é, que tenha, digamos, que passar um tempo internado. Seria justo. Doentes têm de ser tratados, e não presos. Mesmo que o povo queira linchá-lo.
Sabemos que no Brasil a Justiça é muito boazinha. Mas em casos como este de Michel, que tomam grandes proporções, não concordo de forma alguma com o uso da palavra impunidade.
Uso outro caso como exemplo: Guilherme de Pádua, então ator da Globo, que foi acusado de matar a atriz Daniela Perez em 1992. Está solto, faceiro. Guilherme era jovem, bonito, promessa na Globo. Sem o crime, hoje possivelmente estaria rico, famoso pelos motivos corretos, querido pelo povo. Hoje não tem nada disto. Então, como dizer que não perdeu muito? Não foi a Justiça propriamente dita que lhe tirou tudo, muito menos a Justiça Divina, mas a própria sociedade, dando-lhe a consequência plena de seus atos.
O casal Nardoni poderá andar com tranquilidade pelas ruas quando em liberdade? O caso do jornalista Pimenta Neves, que matou a namorada, é humilhante para Justiça, mas ele passou a última década recluso em casa – sem trabalho, sem vida social… Como dizer que não perdeu quase tudo? Susane von Richthofen, que matou os pais, terá uma vida normal quando sair da cadeia?
Michel Goldfarb Costa, independente do que a Justiça lhe dê, também ficará marcado. Possivelmente, ao contrário dos casos acima, sem ter culpa nenhuma no cartório. Que me perdoe o senso comum, mas isto sim seria injusto.
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Leitura recomendada: Sobre o motorista que passou mal, bateu o ônibus e foi linchado, de Rosana Hermann.
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ATUALIZAÇÃO:
11/01/12 – Michel Goldfarb Costa se entregou e deu explicações detalhadas – veja aqui. A história que conta é condizente com um surto paranóico. O que há de atípico, psiquiatricamente, é a recuperação rápida e o insight (autocrítica) demonstrados por Michel. Podem ocorrer? Podem. Mas são atípicos.














CONCORDO C/ O AUTOR, BOA ANÁLISE DO CASO, OPINIÃO ACURADA EM TODO O DISCORRIDO.
Olá…
‘Não havia um propósito evidente… não queria sair matando. Não teve o comportamento típico de um atirador sequencial’. Me explica isso melhor? Pois: os tiros dados foram ‘certeiros’ (num mesmo alvo); ele atirou muito bem e isso os tiros ‘mostram’. Outra: o rapaz que foi ferido (diz o jornal) não morreu por sorte? E, o Michel já apresentava sinais/sintomas paranóicos, não? Tinha arma(s) e colete a prova de balas, carro blindado… pra quê?
Abços
Se ele quiser mesmo matar aquelas pessoas, teria matado-as. Seria fácil.
Então tá… como as intenções do Michel eram boas, ele pode atirar, roubar e agredir.
Acho improvável que o PRIMEIRO indício de doença psiquiátrica seja tão espalhafatoso.
Aposto que ele já deu indícios antes… e não procurou ajuda médica.
Então ele é responsável sim.
Além disso, o sujeito achou que estava em perigo e deixou a namorada pra “morrer”. Um doce de pessoa. Até surtado me parece um egocêntrico.
Pobre menino rico…Maluco esperto, ter surto com colete a prova de balas é bem conveniente para ele. Quero ver no que vai dar essa idiotice.
As pessoas misturam muito justiça com sentimentos, a justiça é racional e tem de ser cumprida se for concluido que no momento da ação o Michel não tinha consciencia de seus atos, automaticamente esta provado que ele não poderia fazer diferente, devido a isso será isento de pena, não temos que criticar a justiça, mas sim brigar por uma reforma no nosso código penal.
O senhor, como psiquiatra, parece que equilibrou bem as coisas. De fato, o rapaz deu uns 20 tiros. A bala que pegou na barriga de um senhor foi ricocheteada. Ele atirava nas fechaduras para abrir a porta.
Certamente não pretendeu matar, mas sua corrida alucinada poderia ter provocado mortes e feridos graves. Teve até sorte demais.
A namorada disse que ele era arredio à família e mesmo que dormiam em camas separadas. O fato de ter arma e colete não diz nada sobre ele ter sintomas paranóicos, visto que ele tinha licença e é sócio de um clube de tiro. Agora, após se entregar falou muito que estava sendo perseguido por alguém (supostos vizinhos). Isso me lembrou outro filme, sobre o economista que depois ganhou o Nobel mas tinha alucinações (Mente brihante). A polícia teria achado um toco de cigarro de maconha na casa dele. E ele disse à TV que já foi usuário de drogas e não recomenda isso a ninguém. O quanto usou, não faço a mínima idéia.
Mas creio, como o senhor disse, que ele pagará caro. Sempre existem consequências para essas loucuras.
João Mendes
Muito bonito o seu discurso de Justiça, o rapazinho aí é teve um surto.
Queria vê-lo sentado no volante como eu estava e ele surgir a sua frente como surgiu na minha só me dando tempo de desviar o rosto e aguardar a morte que felizmente não veio, pois teriamos esposa, filhas e netos amargando neste momento minha passagem, por motivo de um suto de um inocente, inocente sim, pois acho que o culpado sou eu que aos 61 anos de idade sai de casa para trabalhar às 5:30 da manhã e cruzei com esse “inocente rapaz” que me desferiu um tiro em função da loucura que lhe é atribuida por pessoas brilhantes como o Senhor, que por certo se ali estivesse no meio de todos aqueles tiros (mais de 20) por certo tentaria acalmá-lo coitadinho. Talvez eu deva ser julgado por ser um trabalhador honesto e dedicado e que agindo assim por certo jamais serei tachado como louco ou desequilibrado, pois não dá tempo tenho que trabalhar. Portanto acho que tanto o Sr. Quanto esse Rapaizinho decveriam arrumar o que fazer e não ficar um dando tiro na rua e o outro defendendo-o sem ter participado do ocorrido, falar agora é facil. Sugestão sente no volante de seu carro e coloque-o com a Pistola 380 a sua frente e veja se há o que defender.
Ademir Guerretta – Vitima desse inconsequente estrategista que um dia resolveu sair para matar quem quer que lhe cruzasse a frente.
Plenamente compreensível seu ponto de vista, Ademir. É claro que, na sua situação, eu também apenas tentaria salvar minha vida.
A tarefa de “acalmá-lo”, naquele momento, deixaria com a Polícia. E se, numa troca de tiros, Michel tivesse morrido, possivelmente eu defenderia a ação policial.
Mas agora que os fatos passaram, é possível refletir com mais calma. O que queremos para Michel? As vítimas exigirão penas duras.
Para a sociedade, porém, é muito mais seguro que uma pessoa com transtornos mental seja tratada do que presa. A probabilidade de que o autor venha a causar nova tragédia é bem menor.