“LOUCAS DE AMOR” – LIVRO

Loucas de amor, ilustrações de Fido Nesti
Ah, não é nada disto o que um autor quer ler sobre o seu livro!
Pouparei vocês de lerem o que talvez já tenham lido por aí sobre o livro. Se não leram ainda, e querem saber melhor do que se trata, fiquem com esta matéria da Época. (Na verdade, quero é poupar a mim mesmo de reescrever o que já foi escrito.)
Primeiramente, as críticas negativas. Poucas. Alguns errinhos que escaparam na revisão. Exemplo: “cadeira” onde deveria ser “cadeia” (pág. 80). Ou o nome do psiquiatra forense Guido Palomba, que saiu “Palumbo”, em todas as citações. Nada que comprometa o trabalho como um todo, embora seja algo que normalmente incomode o autor de um livro, que, apesar disto, tem que se consolar com o “isto sempre acontece”, “é para isto que existem as segundas edições”.
Só que este livro pode não ter edições subsequentes, infelizmente. A editora “Ideias a granel”, que o publicou, precisa, com urgência, otimizar o site para que apareça no primeiro lugar do Google para a pesquisa sobre o livro. E, além disto, facilitar o processo de compra (segundo me informaram, isto já está sendo feito). Perdem-se muitas vendas quanto mais se dificulta o processo. Não é porque me enviaram dois exemplares, um para sorteio, que não direi a verdade.
E a verdade é que…
O livro é muito bom!
Gilmar Rodrigues é jornalista e fez algo difícil: manteve-se no seu lugar. Não quis dar uma de psicanalista, invocando “complexo de Édipo”, “síndrome de Estocolmo” ou qualquer outra teoria generalizadora para explicar o que viu. Teoriza, sim, mas em cima de fatos – isto talvez nem possa ser chamado “teorização”, mas simplesmente “explicação”. Gilmar não encaixa todas as mulheres, embora apresentem muitas semelhanças, em uma única explicação. É muito difícil manter esta postura – a tendência inata do humano é generalizar, simplificar.
O autor é um contador de histórias. Um bom contador. E as histórias são tão boas que o ajudam. Eu, como psiquiatra, acabo lendo (e escrevendo) muita coisa técnica sobre o assunto (serial killers etc.): números, teorias etc. Mas e as histórias? Onde estão as boas histórias? Aí entra o trabalho de Gilmar Rodrigues, que, como pretende o autor, passa a ser um livro de referência na área, pelo ineditismo do conteúdo (assim como o segundo livro de Ilana Casoy, o “Serial Killers Made in Brasil”). “Loucas de amor” conta histórias que, embora em parte conhecidas, em muito são enriquecidas pelo seu trabalho árduo de pesquisa.
O linguajar do livro é simples e, neste caso, isto é mais um mérito do autor. Não é um livro feito para psicólogos ou psiquiatras. É para curiosos pelas fronteiras (e além) do comportamento humano. Entre estes curiosos, há muitos da área “psi”, por certo, e estes também lerão o livro com prazer. Os quadrinhos de Fido Nesti aumentam o deleite.
Como diria a blogueira: “Puta livro!”…

Gilmar Rodrigues
1) escritores de ficção frequentemente falam da dificuldade de se abandonar os personagens. Escritores de não-ficção às vezes têm esta dificuldade também (Capote é um bom exemplo). Você teve contato profundo com algumas das histórias que pesquisou. Conseguiu abandoná-las? Ou acompanhará o desenrolar dos fatos de algumas destas histórias por um tempo ainda?
Sinceramente, não me prendi a nenhum personagem. Não foi nem uma relação fria de pesquisador e nem pessoal como foi a de Capote com seu personagem (acho que você se refere ao livro “A Sangue Frio”). Eu acompanhei o desfecho de um aspecto da vida de duas mulheres. A Jeane que teve o filho solto e depois preso em uma penitenciária diferente da do Maníaco (o que a impossibilitou de visitá-lo) e de Gisleine cujo namorado foi solto e depois nem deu bola pra ela. Mas nunca tive nenhum tipo de empatia com elas. São mulheres muito carentes, às vezes muito obssecadas por um homem, fazendo dele a razão de sua vida. Essa baixa auto-estima, essa carência toda, fazem delas mulheres com histórias muito interessantes, mas personalidades um tanto aborrecidas. O único aspecto que eu senti cumplicidade foi o delírio delas de montar, nas suas cabeças, uma vida imaginária. Ficam criando homem ideal, imaginam como será a vida dos dois juntos quando ele sair da cadeia, criam um futuro idílico. É puro delírio. Eu sou um pouco sonhador. Mas deliro com outras coisas, claro.
2) você, em algum momento, sentiu ciúme, inveja, ou sentimento parecido, de algum dos criminosos? Seria uma reação natural, um pensamento esperado: “Como esta mulher prefere este traste social a um homem como eu, civilizado, culto, apreciador de salmão grelhado?”.
Não, em momento algum eu senti ciúme da atenção que esses criminosos recebem. Até mesmo porque eles atraem um tipo de pessoa que passa longe do meu universo de relações. Não me refiro a classe social, nem ao nivel de escolaridade, mas não tenho o menor ciúme ou inveja (concordo que é um sentimento humano, possível pra gente) de quem atrai pessoas tão solitárias, tão mal tratadas pela vida. Eu senti foi mesmo tristeza ao perceber que assassinos cruéis, sociopatas, violentos, atraem a atenção de muitas mulheres, e de uma forma intensa, até se referindo a eles como seus salvadores.
E salmão grelhado nos restaurantes em torno da Av. Paulista não é muito caro, não. Hoje deve estar em torno de 20 reais o prato, hehe.
3) apesar de todas as explicações que você achou para cada história, restou ainda um “Como é possível?” ao final do trabalho? Isto é, um “compreendo, mas não entendo”? Porque, por mais que tentemos nos colocar na posição do outro, nunca seremos o outro; logo, sempre há a possibilidade de não penetramos completamente na experiência do outro.
Ótima pergunta. Corretíssimo. Restou sim, para mim, um “como é que pode?”. Uma editora, para a qual mostrei o livro, comentou, como aspecto negativo, que, ao final dele, a minha perplexidade diante do tema era igual a do leitor. Eu acho isso um fato positivo. Manter a perplexidade diante desses fatos significa não encerrar o assunto, significa manter a discussão sobre as questões colocadas, significa não defender uma tese pronta, significa dar algumas respostas e levantar algumas outras perguntas. Essa foi uma das minhas intenções, colocar o assunto em discussão, levantar opiniões mesmo divergentes e não trazer explicações generalizantes. A minha intenção é também instigar o leitor a pensar, refletir, discutir.
4) você faz uma separação nítida entre estas mulheres e as outras? Isto é, há uma diferença qualitativa ou seria apenas quantitativa? Há algo d’O Feminino no seu estudo, a seu ver? Ou seja, estas mulheres são apenas extremos da situação feminina ou elas ultrapassam uma linha que as distingue das demais?
Pra mim as mulheres que têm ou tiveram relacionamento com criminosos sexuais são muito diferentes das outras mulheres. Não acho que sejam extremos da situação feminina. Porque a maioria são moças que não tiveram um boa vida afetiva anterior. Não tiveram muita atenção e carinho na infância, sofreram abandono, algumas também não tiveram casamento ou casamentos felizes, então é uma condição humana. Eu procurei não me deter no aspecto do gênero. Até mesmo porque o homem e a mulher estão ligados a uma mesma realidade perversa. O serial killer ou o estuprador, infelizmente, muitas vezes se complementa na vítima. Tem uma simbiose sinistra através de vivências comuns do passado desses criminosos e dessas mulheres, isso está exposto no final do livro. Eu diria que essas mulheres são o extremo do grupo das “Mulheres que Amam Demais Anônimas”, grupo de auto-aujda muito semelhante aos Alcóolicos Anônimos (um grupo misto). O que tem de particular em relação ao feminino é uma certa visão maternal de querer mudar o criminoso e também uma visão romântica do amor, um romantismo que o Dr. Guido Palomba chama de “infantilismo”, e eu concordo. Mas só o maternalismo e a visão romântica não determinam que o fenômeno seja “coisa de mulher”, seja típico do feminino.
Espero ter respondido conforme a sua solicitação e desejo.
Um grande abraço. Obrigado pela oportunidade de conversar com vocês e os seus leitores.
(Nós é que agradecemos!)
Quanto a esta última questão, tenho uma visão diferente da de Gilmar. Talvez por ser psiquiatra e a maioria de minhas pacientes ser mulher. Ao ler seu livro, tive a sensação de ver ali a Situação Feminina, extremada, mas não radicalmente diferente da que vejo constantemente: carência, atração pelo macho-alfa, o contraditório desejo de ser a única e regenerá-lo (maternalmente) etc.
Isto daria um ensaio interessante, é possível que eu o escreva qualquer dia, mas finalizemos por aqui, por ora. Leia o livro e voltemos posteriormente à discussão.
*
Compre o livro aqui.














Sugiro outro título:
Loucas de Pedra
Ah… E nem fiz meu comentário… Eu odeio tanto o título do livro da Ilana Casoy – “Serial Killers Made in Brasil” – que não tive coragem de comprar ainda. É um título tão… “vou ganhar dinheiro em cima de Serial Killers e um título engraçadinho”. Horrível. Não parece o título de um livro de uma pessoa séria, sabe? Esse “Made in Brasil” mata tudo.. É quase uma celebração pelo fato de termos Serial Killers….
Outra coisa, se brincar, temos até mais Serial Killers que em outros países. A diferença é que a Justiça brasileira não reconhece juridicamente o assassino em série… A Justiça não o julga como tal e se o lapso de tempo entre um crime e outro for muito grande, a Justiça nem entende como um crime continuado.
blarg. péssimo isso.
eu nao li isso
Eu dei uma olhada no Google em livros sobre o Ted Bundy, e fiquei muito surpresa… existem muitos livros sobre ele. Eu sei que ele é notorio, mas…
Bom mas o interessante é que vi um livro chamado “The Riverman: Ted Bundy and I Hunt for the Green River Killer” e lembrei automaticamente dos filmes “Silencio dos Inocentes” e “Dragão Vermelho”, onde o famoso Dr. Hannibal Lecter ajuda Clarisse a encontrar Bufalo Bill e Will Grham a encontrar o Dragão Vermelho, respectivamente! Se alguém souber de alguma informação sobre este livro, se exitem copias traduzidas, qualquer informação, me avisem. Meu email é: re_oliveira_96@hotmail.com