KILLERISMO x TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTI-SOCIAL
Breve história do Transtorno de Personalidade Anti-social
O Transtorno de Personalidade Anti-social (TPAS) foi descrito por vários autores antigos (Pinel, Kraepelin, Schneider etc.), embora o portador recebesse outras denominações, como “psicopata”, “sociopata”, “amoral” etc.
No DSM-I, era um subtipo do transtorno sociopático (juntamente com os subtipos dissocial, desviante sexual e alcoólico).
No DSM-II, os outros subtipos são retirados, assim como o nome “sociopático”. O DSM I e II foram influenciados por trabalhos de Hervey Cleckey, e focavam mais aspectos da personalidade do indivíduo (falsidade, ausência de remorso etc.). As críticas foram sobre a simplificação exagerada. Theodore Millon, por exemplo, defendia a existência de subtipos:
* sádico-agressivo: hostilidade vingativa, desafio destrutivo das convenções;
* histriônico- impulsivo: necessidade de estimulação e excitação;
* exploratório: envolvimento em fraudes, exploração, valendo-se de mentiras, sedução.
Já no DSM-III, por influência de Lee Robins, são valorizados mais comportamentos socialmente indesejados (prisões etc.). Isto também gerou críticas, pois os comportamentos reprováveis podem variar de cultura a cultura.
No DSM-IV e na CID-10 existem tanto aspectos de personalidade quanto comportamentais.
O desenvolvimento do Psychopathy Check List Revised (PCL-R; Hare; 1991) mostrou dois grupos principais de sintomas, um relacionado a fatores inter-pessoais, outros mais à impulsividade e normas sociais.
KILLERISMO X TRANSTORNO DE PERSONALIDADE ANTI-SOCIAL
Para que seja feito, com segurança, um diagnóstico de transtorno de personalidade anti-social (TPAS), dois aspectos necessariamente têm de estar presentes:
a) primeiros sintomas aparecendo antes dos 18 anos;
b) sintomas em quantidade suficiente, na idade adulta.
Existe uma grande tendência de pensar-se o serial killer como um portador do TPAS, isto é, como um “psicopata” típico. Entretanto, analisando-se detalhadamente a história de vários serial killers, notamos que muitos não preenchem claramente os critérios diagnósticos para TPAS, antes do início do killerismo, e isto pode ocorrer por quatro motivos:
a) início tardio dos sintomas (após os 18 anos);
b) nunca preencheu a quantidade mínima de sintomas para o diagnóstico;
c) poucos sintomas, que só apareceram na idade adulta;
d) não apresentava nenhum sintoma de TPAS até o surgimento do killerismo.
Entretanto, quando um indivíduo torna-se serial killer, é inegável que, a partir daquele momento, por definição, ele preenche os critérios sintomáticos do TPAS (excetuando-se alguns casos de killeristas portadores de esquizofrenia, demência etc.).
Ou seja, (quase) todo serial killer possui os sintomas de TPAS. (Diga-se de passagem, de um TPAS extremamente intenso, pior que o TPAS “básico”). Mas, como nem todos os serial killers preenchem todos os critérios para o diagnóstico seguro de TPAS bem antes do início do killerismo, a hipótese que nos surge é a de que o killerismo é algo aparentado com o TPAS, mas não é, exatamente, este transtorno. Justamente por causa das quatro possibilidades listadas anteriormente (início tardio dos sintomas etc.).
Desta forma, concluímos que existem transtornos que se assemelham ao TPAS, mas não o são. E estes transtornos não estão descritos nos manuais diagnósticos – a hipótese de sua existência (e notificação) é aventada, nos códigos residuais (F60.9).
A relativa raridade da incidência do killerismo não é razão suficiente para que ele não seja descrito como entidade nosológica à parte, pois é um transtorno bastante grave, por suas conseqüências sociais. Assim, os transtornos de personalidade não-descritos que podem estar associados ao killerismo merecem uma observação mais detalhada. Respectivamente, poderíamos nomear as quatro situações prévias ao killerismo da seguinte maneira:
a) TPAS de início tardio;
b) traços de TPAS;
c) traços de TPAS, de início tardio;
d) sem qualquer sintoma de TPAS.
Somando-se a hipótese clássica de TPAS típico antes do killerismo, temos 5 possibilidades reais, neste assunto. Cada hipótese desta pode ser desdobrada, se, em um caso em questão, os dados forem dúbios, permitindo-nos apenas um diagnóstico de “provável”.
O killerismo, partindo-se das cinco situações básicas, pode ser, então, em relação ao TPAS:
a) agravamento de TPAS;
b) agravamento de TPAS de início tardio;
c) agravamento extremo e rápido de traços de TPAS;
d) agravamento extremo e rápido de traços de TPAS de início tardio;
e) surgimento súbito de TPAS, sem sintomas anteriores.
Apesar de defendermos que o killerismo pode surgir sem a presença prévia do TPAS típico, não podemos negar que é alta a incidência de TPAS típico entre os serial killers, maior que na população em geral. Assim, embora o TPAS típico não seja um pré-requisito indispensável para o surgimento do killerismo, a sua presença aumenta a chance da incidência do killerismo. Isto é, é mais provável que o killerismo surja em alguém com TPAS típico do que em alguém que não o tenha. E, da mesma maneira, em vários casos, mesmo que não exista o TPAS típico, existe alguma das outras hipóteses intomáticas (traços, início tardio etc.), o que nos leva também à conclusão de que a presença desta situações facilite o surgimento do killerismo, embora de uma maneira menos intensa que o TPAS típico. Por fim, o killerismo pode surgir em alguém sem nenhum sintoma de TPAS, mas esta situação, pela lógica, é menos comum.
Ou seja, quanto mais critérios de TPAS (idade e/ou sintomas), maior a chance do aparecimento do killerismo. Dito de outra maneira: a presença da doença TPAS típico aumenta a chance do surgimento posterior da doença killerismo; a presença de TPAS atípico também aumenta, mas menos intensamente; contudo, por fim, a doença killerismo também pode surgir em indivíduos até então assintomáticos.
O TPAS é uma doença que facilita o surgimento de outra, semelhante mas bem mais grave, o killerismo. Contudo, são dois transtornos distintos. Fazendo-se algumas comparações médicas, entre tantas possíveis: o tabagismo predispõe ao câncer de pulmão, mas este pode surgir em não-tabagistas; a obesidade favorece o infarto, mas pessoas com peso normal também infartam; uma gastrite pode transformar-se em úlcera, mas a úlcera pode ser descoberta em pessoas que não tinham sintomas de gastrite etc.
Algo precisa ser dito sobre o conceito de “prévio”, quando falamos da existência anterior de sintomas de TPAS. É óbvio que o killerismo, quando inicia-se, isto é, no momento do primeiro homicídio, ele não surge exatamente no instante do ataque à vítima. É de se supor que os pensamentos killeristas surgiram no mínimo alguns dias antes – ou semanas, ou meses, ou até mesmo anos, em alguns casos. Quando estes pensamentos surgem, e o indivíduo já os trata de forma ego-sintônica, isto é, já não discorda deles, neste momento em que não há mais empatia o indivíduo já tem ao menos alguns sintomas de personalidade anti-social. Ou seja, desta maneira, todo killerismo será precedido por alguns sintomas anti-sociais. Isto derrubaria por terra nossa hipótese do killerismo surgir em indivíduos sem qualquer sintoma prévio de personalidade anti-social. Pois, necessariamente, antes do primeiro crime haverá o desejo, o planejamento, a falta de empatia etc., o que já seriam sintomas anti-sociais.
Desta forma, quando afirmamos que o killerismo pode surgir de maneira súbita, isto é, sem sintomas prévios de personalidade anti-social, estamos, na verdade, falando de dois fatores.
O primeiro: entre os sintomas prévios de personalidade anti-social não estamos incluindo os pensamentos homicidas ego-sintônicos que antecedem os atos. Estes são, de fato, não sintomas especificamente da personalidade anti-social, mas sim do próprio killerismo – vide os critérios diagnósticos para TPAS, que não incluem o sadismo e a agressividade totalmente imotivada.
O segundo fator: a questão do tempo entre o surgimento das idéias killeristas até o início dos atos killeristas. Como dito, este pode variar de semanas a anos. Se a latência é curta (semanas), poderíamos falar em um killerismo rapidamente progressivo. Se é prolongada (anos), poderíamos chamá-lo de lentamente progressivo. Mas como separar, exatamente, uma definição de outra? Teríamos que estabelecer um critério, que seria, inevitavelmente, arbitrário. Por exemplo: podemos estabelecer o ponto-de-corte em um ano. Se dos pensamentos killeristas aos atos houve uma latência menor que doze meses, diríamos tratar-se de um killerismo rapidamente progressivo. O critério de tempo ideal deveria ser estabelecido através da mediana da latência em inúmeros casos. Entretanto, este trabalho é difícil de ser realizado, pela escassez deste tipo de dados. Desta forma, a princípio é necessário estabelecer um critério arbitrário.
Em suma, o que estes dois fatores querem dizer é que quando dizemos do surgimento do killerismo em indivíduos antes sãos, estamos falando do período que antecede os pensamentos killeristas ego-sintônicos. É provável que, surgidos tais pensamentos, o indivíduo comece a apresentar outros comportamentos anti-sociais. Isto pode confundir a classificação do caso quanto a presença prévia ou não de sintomas anti-sociais. Estes só devem ser considerados como anti-sociais puros se, apesar deles, não houvessem ainda sintomas do killerismo, como o pensamento killerista. Esta distinção é especialmente difícil em casos de killerismo lentamente progressivo.
Classificações do killerismo
O killerismo, assim como pode ser classificado de acordo com a rapidez com que se desenvolve, pode ser visto sob outros prismas. Um deles é sua gravidade.
O killerismo “básico”, isto é, sua essência, é a prática do homicídio. De forma alguma poderíamos chamá-lo de “leve”, dada a gravidade das conseqüências da doença. Entretanto, existe uma forma que é pior que esta, que é a forma sádica.
Vejamos superficialmente o caso do “Filho de Sam”, David Berkoitz. Suas vítimas eram atingidas com tiros, nada mais. Após a execução do ato, ele evadia-se. Não haviam facadas, não havia tortura, não havia estupro, nada disto. Caso diametralmente oposto, neste quesito, a John Wayne Gacy, por exemplo.
Quanto à gravidade, existe ainda outra possibilidade de avaliação, que, em termos sociais, é a mais importante: o número de vítimas. Certo é que um serial killer que matou 10 pessoas em 10 anos e foi preso fez mais mal à sociedade que um que matou 5 pessoas em 5 meses e também foi preso. Entretanto, neste segundo caso, a periculosidade era bem maior (1 vítima/mês x 1 vítima/ano). Novamente, aqui, teríamos que estabelecer um critério matemático para o ponto-de-corte, e talvez fosse melhor fazermos uma distinção não em duas categorias, mas em três: periculosidade básica, intensa e extrema. Mais uma vez, o termo “leve” seria despropositado, quase um desrespeito às vítimas. Apenas inicialmente, na ausência das análises matemáticas, poderíamos estabelecer os seguintes critérios arbitrários, para exemplificar: básica: uma vítima a cada 6 meses ou mais; intensa: uma vítima a cada 1 a 6 meses; extrema: uma vítima ou mais por mês.
Uma outra classificação possível é quanto à presença de sintomas acessórios. São assim chamados porque não são essenciais – essencial, mesmo, é o homicídio. Como o sadismo está incluído no critério de gravidade, também não o colocamos aqui. Desta forma, os sintomas acessórios são as “bizarrices”, a “assinatura” do serial killer. Estão aqui a necrofilia, a mutilação post-mortem, o canibalismo, os souvenirs.
É importante especificar-se o tipo de sintoma acessório, visto que podem ter significados bastante diferentes.
Por fim, uma última classificação possível é quanto à evolução da doença. Este item gera controvérsias. Em alguns (poucos) casos, aparentemente o serial killer para de matar. Não estamos falando, obviamente, de criminosos presos, mas sim do solto. Citemos um exemplo, do serial killer conhecido como “Zodíaco”: apesar de nas suas cartas afirmar que a contagem de mortos não parava de crescer, muitos acreditam que, na verdade, ele teria parado de matar quando atingiu o seu suposto objetivo (mídia etc.), parando para não correr riscos de ser pego, e falando destes números crescentes apenas para aterrorizar.
Classificações do killerismo:
* quanto à presença prévia de sintomas anti-sociais
* quanto à velocidade do desenvolvimento
* quanto à gravidade
* quanto à periculosidade
* quanto à presença de sintomas acessórios
* quanto à evolução
A agressividade, propõe-se, pode ser de dois tipos básicos: afetiva x predatória (Raine et al., 1998) – ou reativa x operativa (Blair et al., 2001). A operativa ou predatória é a planejada, pré-determinada, não dependente de alguma provocação. Vias neurais distintas podem estar envolvidas em cada tipo de agressividade.














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