O Serial Killer

Tenha medo!


psicologia de Ed Gein

Pela quantidade de homicídios que há certeza de que cometeu, dois, nem poderia ainda ser considerado um serial killer, pela definição do FBI. Entretanto, para o público em geral, é, sim. Este exemplo é mais um entre vários da insuficiência da Classificação de Homicídios do órgão americano. Na classificação que propomos, Ed Gein é sim um serial killer – ou um portador do killerismo.

Um killerismo de início tardio. Mesmo se considerarmos que foi responsável por todas as mortes das quais é suspeito, seu primeiro homicídio teria sido a morte do irmão. Contava, na época, com 37 ou 38 anos. Se contarmos somente as mortes que realmente podem ser atribuídas a Eddie, ele tinha 48 anos à época do primeiro assassinato.

Além do início tardio, um killerismo de periculosidade minor. No máximo sete mortes em cerca de 13 anos (novamente considerando-se todos os quais pode ter cometido) – isto é, um a cada dois anos, aproximadamente. Já os dois crimes reconhecidos de Ed ocorreram num intervalo de 3 anos.

Foi considerado inapto para o julgamento, mas não há registros de que fosse psicótico, em sentido estrito. Os seus conhecidos o consideravam “meio estranho”, mas não “louco”. Não há relatos comuns de qual seria o seu “diagnóstico” à época – a inaptidão para o julgamento possivelmente não dependeria especificamente disso. Como o tipo de crime era pouco conhecido àquele tempo, não havia muita jurisprudência no sentido de considerar-se serial killers (o terno nem existia ainda) como conscientes de seus atos, responsáveis por eles.

Não era psicótico no sentido de não apresentar delírios ou alucinações evidentes. Há sugestões de que “via” ou “ouvia” a sua falecida mãe, e que esta pudesse ter sugerido a ele que aquelas mulheres seriam impuras e deveriam morrer. Entretanto, por tudo o que os vizinhos de Ed falam, ele não era um psicótico típico. O seu comportamento, suas falas, seus atos, seu humor, não condize com um diagnóstico de esquizofrenia. Talvez esta história de “ver” ou “ouvir” a mãe pudesse ser mais uma fantasia de Ed, aspectos da sua imaginação, tentando compensar a falta que sentia dela.

Ed Gein também não era um “psicopata”, antes de seus crimes – isto é, não apresentava sintomas indubitáveis de transtorno de personalidade anti-social (TPAS). Talvez nem mesmo “traços” consistentes deste transtorno. Não apresentava retardo mental. Enfim, Ed Gein era “normal”, antes do início do killerismo?

De fato, não apresentava nenhum transtorno mental maior. No máximo, algum transtorno de personalidade (TP). O tipo de TP que mais se aproxima das características de Ed Gein é a personalidade esquizóide. A principal característica deste transtorno é a falta de desejo do portador em estabelecer relações sociais. Torna-se isolado, tem poucos amigos.

Critérios diagnósticos para transtorno de personalidade esquizóide (DSM-IV) – presença de 4 ou mais de:
(1) não deseja nem gosta de relacionamentos íntimos, incluindo fazer parte de uma família
(2) quase sempre opta por atividades solitárias
(3) manifesta pouco, se algum, interesse em ter experiências sexual com outra pessoa
(4) tem prazer em poucas atividades, se alguma
(5) não tem amigos íntimos ou confidentes, outros que não parentes de primeiro grau
(6) mostra-se indiferente a elogios ou críticas de outros
(7) demonstra frieza emocional, distanciamento ou afetividade embotada

Ed Gein apresentava praticamente todas as características descritas para o diagnóstico. Não apenas na época dos crimes, mas já bem antes deles, já mesmo na adolescência e na infância.

Um transtorno de personalidade, acredita-se, seja uma influência de predisposição genética somada a eventos de vida. A predisposição pode ser observada pelo fato de Ed possuir um irmão, que viveu sob a mesma criação do assassino, mas, ao contrário de Gein, manifestava desejo de sair da fazenda, de sair do ambiente isolado do resto do mundo em que viviam.

Por outro lado, existiram os eventos de vida a atuar sobre esta predisposição. A mãe de Ed exercia o seu domínio sobre todos na casa. Era controladora, impunha as suas crenças sobre o marido e filhos. E, no seu modo de ver, o certo mesmo era o isolamento, pois “o mundo lá fora” era sinônimo de tentações, de pecados, especialmente a figura feminina. Ed absorveu o que ouvia diariamente.

Um diagnóstico diferencial que o TPE exige é com a fobia social, ou timidez patológica. Nos dois casos, há pouco contato social. Só que o fóbico “não consegue” estabelecer contato, já o esquizóide não deseja este contato. Assim, o fóbico tenta lutar contra isto. Acaba, por fim, estabelecendo algumas relações nas quais consegue “se soltar” mais. Não parece ser o caso de Ed Gein.

O transtorno de personalidade esquizóide, de forma alguma, justifica o killerismo. A necessidade de matar. (ver capítulo para discussão mais aprofundada sobre o transtorno e sua relação com o killerismo)

Entretanto, pode ajudar a explicar um outro aspecto do killerismo de Ed Gein. O killerismo dele, como vimos, é de “pequena” periculosidade. Além disto, é de “baixa” gravidade, isto é, os aspectos sádicos são pequenos, pelo que se sabe. Alguns killeristas estupram suas vítimas, torturam-nas fisicamente e psicologicamente. Já Ed, aparentemente, não fez isto. Fazia diversos “experimentos” com os corpos, mas depois que já tinham sido mortas. Mortas com tiros – o que é menos cruel que matar com facadas, por exemplo. Ou seja, o seu killerismo não parece tanto associado à necessidade de infligir dor, de provar o poder de “sentir-se Deus”. Parece mais importante, mais constante e significativo, em sua história, a necrofilia que o killerismo.

Mas a necrofilia não justifica totalmente o killerismo. Ed poderia ter continuado a “brincar” apenas com cadáveres de pessoas que não matou. Contudo, por algum motivo, em determinadas épocas ele “precisou” matar alguém. Qual seria a razão? Escassez de mortes na região, gerando poucos cadáveres novos? Desejo de manipular um cadáver “fresquinho”, ao invés dos que tinham começado a se decompor que desenterrava? Não se sabe com certeza. O que sabemos indubitavelmente é que o desejo de matar surgir. E é isto que caracteriza o killerismo, é isto a sua essência.

Sua necrofilia não gerou mas facilitou o killerismo. Já a sua necrofilia não foi gerada mas foi facilitada pela sua personalidade esquizóide (que não foi gerada mas foi facilitada pela criação que recebeu). A associação entre a necrofilia e o TPE, embora não seja uma regra, pode ser compreendida. O acometido pelo TPE apresenta uma ausência de vontade de contato com outros seres humanos. É isolado, as relações que estabelece são breves, superficiais. Desta forma, o acometido vive “no seu próprio mundo”. O TPE não gera o killerismo. Tanto que nem todos os portadores de TPE são necrófilos, e nem todos os necrófilos têm TPE. Contudo, o TPE “abre um espaço” para a necrofilia. Se não fosse um esquizóide, Ed Gein teria o desejo de ter contato com outras pessoas. Este contato reduziria o espaço psíquico para as suas fantasias necrofílicas. Reduziria mesmo o tempo disponível para que estas fantasias fossem alimentadas e crescessem.

Já a escolha das vítimas de Ed parece bastante relacionada com os problemas de sua ligação com sua mãe. Uma relação que era muito próxima, muito fundida. No filme de Hitchcock, embora não seja uma reprodução literal da vida de Ed Gein – esta foi apenas a inspiração inicial para o roteiro -, este aspecto é levado a um grau extremo: Norman Bates, o personagem principal, o assassino do chuveiro, tem a personalidade dividida, dissociada, vivendo ora como si mesmo, ora como sua própria mãe.

Segundo alguns, Ed Gein sonhava em ser mulher por causa do poder que enxergou em sua mãe.

É uma bela hipótese. Suas vítimas de homicídio confirmadas foram mulheres. E as duas não muito jovens. Os restos encontrados em sua casa, de corpos furtados em cemitérios, eram de mulheres, de mais idade (possível exceção para dois corpos). Destacam-se, entre estes, vaginas e seios.

Ed não era homossexual no sentido estrito porque, sendo esquizóide, não desejava relações íntimas com humanos; logo, não houve oportunidade mental para que se relacionasse sexualmente com homens. Além disso, é bastante possível que fazia sexo com os cadáveres, femininos (talvez não sexo no sentido tradicional, mas brincadeiras sexuais). Ou seja, fazendo uma hipótese bastante livre, um “se” completo, a “alma” de Ed Gein era lésbica: era mulher e queria relações sexuais com mulheres. Tanto que há relatos de que ele já havia pensado em amputar o pênis ou fazer uma cirurgia para mudar de sexo.

Nas suas fantasias, construiu um novo mundo. Fez “roupas-mulher”, vestia elas, dançava à luz da Lua com estes “acessórios-mulher” que costurou: uma peruca, um rosto (daí veio a inspiração para o personagem Leatherface [“face de couro”] do filme “O massacre da serra elétrica”), uma genitália feminina que colocava sobre a sua. Nestes momentos, “virava mulher”.Virava a própria mãe. Norman Bates aprendeu com Ed Gein…