Gosto da série “Dexter”, apesar de achá-la ruim. Sei, é contraditório. Gosto por dois motivos: o tema, serial killers, me interessa; e séries são feitas mesmo para que nos prendamos a elas, deixando sempre um mistério para o episódio seguinte.
Acho “Dexter” ruim, por outro lado, justamente por ser uma série. Séries em geral são ruins, mesmo que não percebamos, mesmo que as amemos. São ruins porque, por sua dinâmica, elas têm que fechar uma curta história em menos de uma hora. Isso as torna superficiais.
É um paradoxo. A primeira temporada de “Dexter” teve 12 episódios. Cada episódio, mais de meia hora. Ou seja, são mais de seis horas de história. Se fosse um filme de seis horas, teria como ser profundo, porque as histórias curtas que têm de estar em cada episódio seriam cortadas, e a história principal, que liga todo os episódios durante o ano, poderia aflorar melhor definida.
Desta forma, temos seis ou sete histórias com uma longa história pouco desenvolvida e uma dezena de histórias curtas também superficiais. Aliás, ainda há as histórias de duração intermediária, que se resolvem em poucos episódios. Por isto “Dexter” é ruim, por isto quase todas as séries são ruins.
Os personagens são simples demais, cada um com sua função bem definida: o bom, o mau etc. Rita, a namorada de Dexter, é a pura. A irmã, Debra, é a impulsiva. Doakes é o estressado, implicado com Dexter. Etc.
Ok, isto ainda passa… Séries são séries, e não filmes, e é como séries que devem ser avaliadas. O grande problema de “Dexter”, para mim, está no próprio personagem principal, Dexter Morgan, que é muito pouco aprofundado. Sim, seus conflitos são mostrados. Mas o episódio deve durar seus 40 minutos, e deve ter agilidade. Logo, não há nenhum mergulho mais detalhado nos questionamentos de Dexter.
Além disto, não gosto da interpretação de Michael C. Hall. Sei que foi bem premiado por sua atuação na série. Mas acho seu Dexter “limpinho” demais. Embora a culpa nem seja do ator, e sim do roteirista e do diretor da série.
Noto no personagem Dexter uma influência da mística de Ted Bundy. O serial killer ted Bundy, que matou mais de 30 mulheres, passou à história como um assassino inteligente e charmoso. Isto ainda leva muita gente a acreditar que todos os assassinos em série sejam assim. Não, muitos levam uma vida desajustada. Mas, de fato, muitos eram bem adaptados, socialmente, como Gary Ridgway (um dos maiores serial killers americanos; matou cerca de 50 prostitutas).
O imaginário do serial killer charmoso e inteligente já deu em uma obra-prima: Hannibal Lecter, de “O silêncio dos inocentes”, brilhantemente interpretado por Anthony Hopkins.
A atuação de Hall está a ano-luz da de Hopkins. É covardia a comparação. Hopkins, inclusive, levou o Oscar de melhor ator por este filme. Prêmio merecido, indiscutível.
Dexter é bonitinho, mas não tem charme, não é sedutor – aliás, foge de mulheres (mas também não é gay). Inteligente? Nada de mais, faz bem seu trabalho de investigação, mas os seus homicídios não têm mistério algum. Ele não cria nenhum jogo, como os mais famosos serial killers do cinema (vide “Jogos Mortais”, por exemplo) – não jogo nem com as vítimas, nem com a polícia, nem com o telespectador. É tudo simples demais para um serial killer.
Nos casos reais, muitas vezes os serial killers são “simples” mesmo. Têm o desejo de matar, realizam seus crimes sem muita complexidade e vão embora – caso, por exemplo, dos próprios Bundy e Ridgway. Mas não é isto o que se espera de um serial killer ficcional. Espera-se dramaticidade, mistério.
Aliás, mesmo casos verídicos às vezes são mais interessantes que o serial killer Dexter. Vide “O Filho de Sam” (David Berkowitz) ou o “Assassino do Zodíaco” que, com suas cartas, amedrontaram a população e forçaram a polícia a caçadas sem precedentes.
Dexter, como serial killer, admitamos, é muito sem-graça. Uma grande oportunidade perdida de se fazer um grande personagem, pois a idéia de um serial killer de serial killers é original.
Se fosse para o cinema, com a mesma equipe (roteirista, diretor e ator) provavelmente daria um filme ruim. Na TV só nos prende porque é uma série.
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