O Serial Killer

Tenha medo!


psicologia de Carl Panzram

A história do serial killer Carl Panzram não tem como ser mais monótona. Mas como pode ser, a de um homem que matou friamente mais de 20 pessoas? A palavra “monótona” é empregada aqui em seu sentido original: “um tom apenas”. Desde sua infância, sua vida foi uma repetição de furtos, violência sofrida e infligida a outros, assassinatos, prisões, fugas – e recomeços do ciclo. Ao lermos seus dados biográficos, notamos que nada se fala sobre trabalhos, namoros, nada disso. Panzram nasceu para o crime. Sua vida era isto apenas. Em uma ocasião em que foi preso, quando faziam a sua ficha indagaram a sua profissão. Ele respondeu: “Ladrão!”. Às vezes ele era honesto…

Bastante honesto. Panzram escreveu uma autobiografia. Esta só foi publicada na íntegra várias décadas após a sua morte. “Eu estava tão cheio de ódio que não havia lugar para sentimentos como amor, piedade, ou honra, ou decência.”

O caso de Carl Panzram é um caso típico onde a psicologizacão tende a obscurecer um pouco a realidade. Criar teorias não é condenável – necessitamos delas para organizar nosso entendimento do mundo. O problema é que às vezes elas se afastam da realidade.

Menninger, psicólogo que avaliou Panzram, acreditava que a culpa por Panzram ter se tornado um frio assassino em série era dos abusos sofridos nos reformatórios e nas prisões pelas quais o criminoso passou.

Os abusos podem ter transformado-o em um serial killer? Por si só, não!

Uma teoria como essa deve ser sempre argüida assim: todos que por lá passaram viraram serial killers? Não! Então, no mínimo, havia uma predisposição em Panzram.

Muitos defendem a teoria dos abusos. O psicólogo, o guarda com quem estabeleceu uma relação amistosa (Lesser), e o próprio Panzram. Aliás, dos dois primeiros pode-se dizer que foram, por certo, influenciados pelas palavras do próprio assassino. Eles aceitaram a teoria que Panzram lhes vendeu. Mas o assassino mesmo acreditava nisso? É bem possível.

A questão que não é muito levantada é: por que Panzram, tão novo ainda, foi parar naquele reformatório? Por que desde os oito anos entrou em uma vida criminal? Por causa da criação recebida? Não! Seus irmãos eram trabalhadores esforçados, ele disse. E todos receberam criação semelhante. Carl disse que também que os irmãos batiam muito nele. “Eu tenho sido um animal desde que nasci. Eu era um ladrão e um mentiroso.”

O que falta a esta teoria é analisar a gênese da coisa, e esta parece residir em uma predisposição biológica de Panzram. Na infância, Carl já tinha traços de um transtorno de personalidade anti-social (TPAS). Usando-se os critérios diagnósticos de hoje, não poderíamos fazer esse diagnóstico apenas por causa de sua pouca idade, mas poderíamos fazer um de transtorno de conduta na infância, que comumente evolui para o TPAS. Comumente mas não sempre. Aí entram outros fatores. Aí entra a história do reformatório. Que pode ter piorado e solidificado esta tendência. Neste ponto, é difícil discordar. O que mais poderíamos esperar de uma criança (que já tinha tendências anti-sociais, frise-se isto) que é seguidamente espancada e violentada, que ao sair da instituição volta para uma vida pobre em todos os sentidos?

A justificativa que Panzram dá para seus assassinatos até desce bem, às vezes, como quando ele mata um guarda “responsável” pelo fato de ele ter ido parar na solitária (o que Carl não assume é a sua responsabilidade de ter infringido uma norma da prisão – normas severíssimas, por certo, mas novamente lembremos: nem todos iam parar na solitária). Mas como entender este salto que ele faz em seu raciocínio: os guardas não prestam; logo ninguém no mundo presta?! Como entender o fato de matar inocentes, pessoas que não tinham absolutamente nada a ver com o sofrimento pelo qual passou?

Se Panzarm não tivesse sofrido tantos abusos logo cedo, pode ser que não tivesse se tornado um serial killer, ou mesmo “apenas” um anti-social não-assassino? Pode ser, mas esta resposta nunca saberemos. Assim como também pode ser que mais tarde a psicopatia e o predadorismo aparecessem, disparados por outra situação qualquer, e Panzram encontrasse outra justificativa para seus atos. Porque Panzram, como qualquer um de nós, quer entender o que se passa consigo.

O ódio do mundo, da humanidade, que ele passa a professar em seus últimos anos (e tudo o que dispomos é o que ele falou desde então, e devemos ter em mente que isto é ele falando sobre o passado – ou seja, nem tudo é memória pura, mas às vezes interpretação, distorção, exagero etc.), este ódio tão exposto de tudo e de todos às vezes parece não se materializar tanto – foram 23 mortes, sim. Mas muitos outros serial killers, que nunca falaram deste ódio, mataram mais pessoas em menos tempo. Peguemos Ted Bundy, por exemplo: cerca de 36 mortes em um período não maior que 5 anos.

Se o ódio de Panzram foi gerado por guardas, carcereiros etc., porque a grande maioria de seus crimes não foi contra estes, ainda mais considerando-se que passou boa parte de sua vida preso? Panzram agia às vezes impulsivamente, agressivamente – mas não nos esqueçamos que o seu impulso de sodomizar era maior que o de matar – bem maior foi o número de vítimas deste crime do que as de homicídio. Nem todos os que violentou ele matou, mas quase todos os que matou, violentou antes. O homicídio era então apenas parte de um impulso maior – o da agressão sexual homoerótica. Se odiava “a humanidade”, por que não estuprou e matou mulheres? Ou, insistimos nisto, por que não guardas, carcereiros, e sim outros presidiários?

Panzram encontrou, nos parece, esta justificativa – o reformatório, os maus-tratos recebidos etc. -, e a ela se agarrou. E com ele levou vários outros na mesma crença.

*

Outro ponto curioso na história do psicopata Carl Panzram é a sua negativa em recorrer da condenação, ou alegar insanidade. Suas negativas apontam para duas hipóteses, parece-nos.

A primeira é que desmereceria tudo o que fez. Como se o fato de ser inocentado anulasse os seus atos. Não, ele não queria nem mesmo defender-se, queria que os atos ficassem intocados, puros.

A segunda é um pouco mais especulativa. Panzram tinha tatuado “Justiça e Liberdade” em seu peito. No seu julgamento, afirma claramente (em uma cena de um filme que retrata sua vida): “O que eu exijo é justiça!”. A sua punição, então, seria a primeira vez em que veria a justiça ser feita pela própria Justiça. Panzram achava que o pessoal do reformatório e das prisões é que deveria ter sido punido. Mas não foram. Agora, ele toma o lugar deles e faz a punição acontecer. Simbolicamente, estaria punindo, então, os do reformatório.

É interessante notarmos que, na verdade, este seu desejo de que a justiça seja feita vai surgir apenas no final. Antes, mudava de nomes, fugia das cadeias. Justiça não seria ficar preso, também, quando deveria? Sim. Mas isto não era suficiente. Era uma justiça muito fraca, pequena. Para quem tantas vezes fugiu de cadeias, não é estranho, no final, não querer advogado, não negar o crime, não querer alegar insanidade mental, não apelar, não querer ajuda de entidades contra a pena de morte, e, finalmente, não tentar fugir?

Quem foge quer a liberdade. Quem não quer viver, se mata. Por que só agora, condenado à morte, ele não tenta escapar (mesmo pelos meios legais)? Por que só agora ele diz que não quer viver? Por que ele mesmo não se matou, portanto? Porque isto não seria Justiça – contra os que odiava.

Um estranho caso em que, para vingar-se de uma brutalidade recebida, toma o lugar do bruto na hora da punição, já que este não compareceu para recebê-la. Algo como: “alguém tem que ser punido, mas já que não vieram, que seja eu mesmo – alguém tem que ser punido”.

Como diz seu advogado ao final do julgamento: é um suicídio legalmente sancionado.